Terça-feira, Outubro 11, 2005

Enterrar viva a história de uma Cidade

Quem frequenta este blog, na certa, já está habituado aos temas maçudos e, mais ou menos, controversos dos meus post's. Este não será excepção embora seja muito especial e sentido.

No séc. XII a Marinha Grande já existia como povoamento mas só em meados do Séc. XVIII é que se notabilizou com a vinda da Fábrica de Vidros de Coina, em 1748. Devido às suas características fisicas e geográficas a Marinha Grande oferecia importantes mais-valias para este tipo de indústria, como por exemplo, as areias para a composição do vidro e a madeira do pinhal de Leiria para a combustão dos fornos. O Sir. Jonh Beare foi o primeiro administrador mal sucedido.

Seis anos mais tarde, o inglês Guilherme Stephens, com o apoio fundamental do Marquês de Pombal, pede um empréstimo ao Rei, sem juros, para adquirir a fábrica da Marinha Grande e a pôr a laborar. Conseguiu ainda permissão para utilizar a lenha do Pinhal de Leiria para alimentar os fornos, sem qualquer custo.

Guilherme Stephens e os seus 2 irmãos, Diogo e Filadélfia, não se preocuparam somente com o seu lucro. Movidos por uma generosidade e inteligência sem precedentes, empenharam-se na educação e instrução dos seus trabalhadores, abrindo uma escola pós horário laboral e promovendo actividades culturais e lúdicas no espaço da Fábrica. Exemplo disso é o teatro onde os própios trabalhadores representavam Voltaire!

A fábrica foi um caso de sucesso a todos os níveis.

Depois de Guilherme Stephens morrer foi o seu irmão que tomou conta da fábrica continuando com as mesmas linhas orientadoras até então. No entanto, Diogo Stephens, querendo deixar ao povo uma fábrica que também era sua, doa-a, em Testamento, o Estado Português.

Aqui, em 1826, inicia-se um novo ciclo na história da Fábrica Irmãos Stephens mais conturbado. Sucedem-se os conflitos entre administradores e os trabalhadores, resultando em greves e séries crises que culminam em 1992, definitivamente, com a extinção da F.E.I.S pela mão do então Primeiro-Ministro Cavaco Silva.

A Fábrica Escola Irmãos Stephens, produtora de vidro e cristal de fama mundial é abandonada pelo governo português, era um peso que este não queria carregar mas essa era a sua obrigação. Anos a fio impigiu à F.E.I.S, administradores pouco competentes e corruptos que andaram a alimentar os própios bolsos com o dinheiro dos subsídios, em vez de apostarem na técnologia e formação de modo a fazer face às exigencias do mercado. No fundo, bastava-lhes cumprir honrosamente a sua tarefa, seguindo exemplo dado por Guilherme Stephens há mais de 100 anos atrás. Mas não!!! E o estado português, negligente propietário, também não se ralou muito.

Hoje, 11 de Novembro de 2005, os fornos desta fábrica foram condenados definitivamente, o seu último proprietário, mais um vampiro que sugou até à última gota o legado dos Stephens, aproveitou o nome da fábrica para se auto-prestigiar, quando o conseguiu sangrou os fornos e deixou centenas de trabalhadores na rua, com salérios em atraso e com o trabalho de toda uma vida esquecido.

Estamos a deixar enterrar a história da nossa cidade de braços cruzados. Estamos a deixar morrer uma profissão que dantes era sinal de grande prestigio - o mestre vidreiro.

A mim, pessoalmente, custa muito ter lido esta notícia hoje:

"a massa falida da Jorgen Mortensen dispõe de condições jurídicas que permitem juntar a parte fabril ao património edificado e colocar a fábrica a produzir", garante a administradora judicial Alexina Vila Maior. Só que o cenário existente configura o irremediável desmantelamento final da unidade, 236 anos após a fun- dação pelos irmãos ingleses Stephens. À falta de interesse dos investidores na produção do vidro junta- -se a ausência de propostas institucionais que visem a manutenção da Fábrica-Escola Irmãos Stepens como legado cultural ao povo marinhense. "

in Diário de Notícias, edição de 11/10/05

2 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Another brilliant post!

cheating spouse.

1:41 PM  
Blogger Tiago Miguel said...

As unicas tradições que vigoram em Portugal são as de divertimento, tal como feiras de bruxedo, e a tauromaquia. Trabalho........

12:03 AM  

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