Mania de enterrar a cabeça na areia
'O que os olhos não veêm o coração não sente' ou ' Roubar não é vergonha, vergonha é ser apanhado!' , são apenas dois exemplos para a atitude que a maioria das pessoas adoptam em relação à questão da discriminação do aborto. E convém sublinhar a utilização da palavra discriminalização em deterimento da palavra despenalização, porque as duas têm significados muito diferentes. E essa diferença é fundamental neste tema.
A discriminalização significa deixar de tratar como criminosa uma mulher que se viu obrigada a fazer uma opção de extrema dificuldade e violência para si. Não acredito que alguma das mulheres que optaram por esta situação o tenham feito de ânimo leve ou sem antes terem ponderado sobre todas as possibilidades. A interrupção de uma gravidez é física e psicologicamente muito dolorosa para uma mulher, não é feita por gosto concerteza!
E a sociedade que condena estas mulheres é também a sociedade que lhes retira todos os apoios para elas puderem trazer uma criança ao mundo com a promessa de uma vida digna. É do conhecimento geral que uma mãe solteira é vista com outros olhos pela comunidade em que está inserida, assim como uma grávida tem maior dificulfade em conseguir emprego ou a conservar o que já tem.
Mas estas são apenas algumas das dificuldades primárias, depois temos todas as outras, bem mais complexas, que se seguem ao nascimento da criança. Quando oiço falar na defesa da vida, surge-me sempre a mesma questão: Será que esta gente tem consciencia que as mulheres que abortaram o fizeram na ausência de qualquer possibilidade de cuidar da vida de uma criança? É melhor ter um filho para não lhe poder dar educação, habitação, saúde e pão? É que os apoios sociais em Portugal não servem de muito, e não nos podemos esquecer disso.
Esta questão do aborto, na minha perspectiva, passa apenas por, de uma vez por todas, tirarmos a cabeça da areia e assumir-mos a sociedade que temos, os abortos sempre foram feitos em Portugal e não é por a lei não o permitir que vão acabar (nunca acabaram). Temos por isso de dar condições a estas mulheres para fazerem as suas opções às claras e providênciar-lhes todo o apoio necessário para terem ou não um filho. A alteração da lei não vai aumentar o número de abortos, pelo contrário vai apenas tornar clara uma realidade que a tempo certo terá de ser reflectida.
Antes terminar queria apenas levantar uma questão. Onde estão os homens que engravidaram estas mulheres? Porque não estão eles presos também?

8 Comments:
isso deve ter em conta aquela parte em que vivemos num país atrasado??? que considero quase de 3 mundo?
Obviamente que as mulheres sofrem quer fisica quer quer mentalmente ao fazer e pós aborto, mas isso nunca pode ser desculpa para o fazerem, cientificamente está mais que provado que a partir de uma determinada altura as mulheres já não andam apenas com tecidos na barriga, mas quase outro ser quanto elas, na minha opinião não podemos ser liberais com o aborto, o estado deveria de apoiar socialmente, coisa que não acontece, mas quer homens quer mulheres(na maioria dos casos) deveriam de ser responsáveis pelo que fazem, devendo depois acartar com as consequências.
Tiago,
Isso que dizes acerca da responsabilização dos homens é muito bonito vindo de ti, homem também, mas deixa-me dizer-te que só funcionaria numa sociedade perfeita com pessoas perfeitas e um sistema judicial perfeito... n me parece que isso seja possivel em Portugal, este cantinho tão bem plantado à beira-mar.
sim sem duvida!onde estam os homens nessa altura?eu vivo na holanda e como sabes ,o ABORTO è`livre...a mulher aqui tem os mesmos direitos que o homem...direito a palavra principalmente...o que infelizmente nao acontece em portugal!porque?nao sei!mas uma da rasoes è o facto de que os homens em portugal ainda nao deixaram de ser,ou melhor querer ser "machos"!
É óbvio que a criação é feita por um homem e por uma mulher, por isso ambos têm de acatar as responsabilidades. Se em Portugal não há esta conciência enraizada, é culpa da falta de educação, lembro que 50% dos portugueses nem sequer tem o 9ºano, onde o sexo é tabu e muitos nem sabem o que é aborto. Não penso que seja necessário uma sociedade perfeita, pois o perfeito para mim é inatingivel, talvez noutros países onde a instrução e o bom senso é maior seja possível haver uma consciencialização. Posso concordar com destruição de células, mas não posso concordar com a morte de um ser humano.
Tiago,
Ainda não percebi bem qual é a tua posição em relação à discriminalização do aborto e acho que tu também não!
Eu também não queiro uma sociedade perfeita, Utopia só a do Sir. Thomas More. Eu concordo em quase tudo o que dizes no post, no entanto, acho que não podes argumentar a práctica do aborto com a falta de educação (embora ela tenha as suas influências na matéria).
Quem não é alfabetizada não tem acesso à informação e não sabe, por isso, que meios contraceptivos tem à sua disposição. Isto não é desculpa para praticar um aborto,nada é desculpa para tal acto traumatizante, mas é sem dúvida nenhuma um factor preponderante.
Eu não defendo a prática do aborto muito menos sob a forma de um anticoncepcional. A única coisa q aqui quero defender é a dignidade das mulheres e esta passa pela discriminalização do aborto.
Se a classe política maioritária defendesse o real interesse da população já há muito que teríamos educação sexual nas escolas, consultas de ginecolgia para todas, e não só para quem as pode pagar, e as mulheres fora dos tribunais.
Vou tentar ser incisivo nesta questão. Não quero andar mais às voltas com este assunto. O aborto tem de ser prevenido, a maioria dos abortos provem da má responsabilidade de portugueses e portuguesas, e isso melhora-se com a educação. Quanto ao aborto em si, penso que não tem lógica ser praticado seja qual for a situação da gravidez, quando já está formado um ser. Agora a pergunta pode ser o que é um ser? Ou a partir de quando?
Depois de algumas visitas e apesar de algum atraso, não posso deixar de comentar este post!
Indigna-me e revolta-me a conotação criminosa que dão a uma mulher que decide fazer um aborto! Joana, é como dizes o aborto sempre existiu e sempre vai existir!, então porque não dão condições dignas de higiene e segurança a uma mulher que o decida fazer? Não basta já o sentimento penoso que isso certamente lhe causará por si só para ainda passar a ser vista como uma criminosa e, pior que isso, colocar a sua propria vida em perigo simplesmente porque o tem de fazer por "portas-travessas"?
Não quero com isto dizer que o aborto deveria ser uma prática banalizada na nossa sociedade, acho que antes dele há que prevenir! Talvez passe como dizem, por uma questão de educação, mas hoje em dia não é preciso ter-se um curso superior para se saber o que são e como se usam os metodos contraceptivos!
Não sei se esta resistencia à liberalização do aborto se deve ou não ao facto de termos um país maioritariamente governado por homens, mas também me irrita saber que as mulher que criticam são muitas vezes as que nem se dão ao trabalho de ir às urnas nos dias de referendo sobre a mesma Lei!
Para acabar, e para o caso de ainda não saberem, partilho com vocês algo que, agregado a tudo isso, me revolta ainda mais como mulher:
se uma mulher decidir ser operada para fazer uma laqueação das trompas (por não desejar mais nenhuma gravidez que, cajo surja a possa "obrigar" a fazer um aborto e consequentemente a ser vista como "ciminosa"), A OPERAÇÃO SÓ PODERÁ SER FEITA CASO O MARIDO OU COMPANHEIRO ASSINE UM TERMO EM COMO DECLARA QUE NÃO DESEJA MAIS FILHOS!!!!
Acham normal?? mas afinal em que país é que vivemos? desde quando é que o homem que viva com uma mulher pode ser ele o decisor se ela tem ou nao mais filhos?!
É simplesmente indecente que as leis continuem a mandar no corpo das mulheres... isto sim é um crime!
Enviar um comentário
<< Home